Costumamos “jogar pra Deus” aquilo que nos parece grande demais: a inflação do cotidiano, as dores silenciosas da mente e as inquietações do espírito. Longe de ser fuga, esse gesto revela um traço da nossa cultura: o “Deus brasileiro” tem malandragem criativa — não para burlar regras, mas para encontrar caminhos onde parece não haver saída. É a arte de conciliar diferenças, de “casar judeu e palestino”, como diz o dito popular, sem negar conflitos, mas reconhecendo que há pontes possíveis.
Esse modo de ver o mundo nasce de uma brasilidade híbrida: permissividades indígenas e africanas sob a lente europeia colonizadora. Nessa mistura, aprendemos a resistir e a superar preconceitos. E, se a fé inspira, a prática exige método. Porque problemas materiais, emocionais e espirituais pedem soluções complementares: tecnologia e formação, acolhimento e escuta, ética e governança. Fé não substitui processo; dá sentido à caminhada.
No mercado de viagens, turismo e eventos, essa síntese se prova todos os dias. O setor é uma cadeia longa — transporte, alojamento, alimentação, cultura, tecnologia, promoção — alinhavada por redes associativas que reúnem líderes com responsabilidades reais. Quando essa rede opera como comunidade de propósito, o “Deus brasileiro” deixa de ser desculpa e vira compromisso: produzir valor econômico enquanto promove paz social e fraternidade no território.
Aqui, o hoteleiro tem papel insubstituível. O dono do hotel é o guardião da hospitalidade. É ele quem decide se a planilha manda na experiência ou se a experiência educa a planilha. Abraçar os valores da hospitalidade significa treinar equipes para o cuidado, investir em acessibilidade, honrar direitos trabalhistas, comprar de fornecedores locais, medir impactos e reduzir desperdícios. Significa também usar ferramentas competitivas — da qualificação profissional à inteligência de dados — para aumentar produtividade, reduzir custos de insumos e valorizar as pessoas — por direito, sujeitos de dignidade e proteção.
O hóspede percebe quando a casa tem alma. Um check-in que respeita diferenças, um café da manhã que dialoga com o entorno, um evento corporativo que inspira pertencimento: são gestos que somam reputação, recorrência e receita. E, quando a governança é sólida, até a “malandragem criativa” ganha outro sentido: vira improviso competente, aquele que resolve sem romper a ética.
Talvez seja essa a vocação da nossa “fé prática”: transformar o “se Deus quiser” em estratégia compartilhada. O Brasil que aprende com sua diversidade pode ensinar que hospitalidade não é só negócio; é tecnologia social de convivência. No fim do dia, a verdadeira produtividade é a que harmoniza matéria, emoção e espírito — e faz do encontro entre pessoas o nosso melhor produto.
O associativismo na hotelaria cria um senso de pertencimento e de coletivo acentuado, além de contribuir para o desenvolvimento profissional individual | Crédito: Freepik
Em um cenário cada vez mais competitivo, o hoteleiro moderno precisa de mais do que expertise em operações e atendimento para se destacar. E é justamente aí onde entra o associativismo na hotelaria. Participar ativamente de uma associação profissional como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) é um diferencial estratégico que pode acelerar seu crescimento e ampliar as oportunidades de forma significativa. Mais do que o simples status de “associado”, a imersão em encontros, grupos de trabalho e projetos coletivos proporciona aprendizado prático, networking qualificado e o desenvolvimento de competências essenciais para liderar – agora e no futuro.
O que o associativismo na hotelaria traz na prática
Networking, debates acerca das melhores práticas de mercado e participação ativa em projetos que visam fortalecer o setor como um todo estão entre as vantagens trazidas pelo associativismo na hotelaria | Crédito: Freepik
Fortalecer a rede de relacionamentos é o ponto de partida do associativismo na hotelaria. Na ABIH você encontra proprietários, gerentes e fornecedores de todas as regiões do Brasil, dispostos ao intercâmbio de experiências. Estas conexões não surgem por acaso: fazem parte de uma agenda estruturada de atividades, fóruns e rodadas de negócios que fomentam colaborações reais. “Graças à parceria da ABIH-SP com a plataforma Solution4Hotel (S4H), em processo de compra colaborativa economizei na minha pousada mais de 20% em comparação com os preços praticados no varejo”, comemora Rodrigo Tavano, sediado no litoral norte de São Paulo.
O aprendizado contínuo é outro pilar da ABIH-SP e uma ótima consequência do associativismo na hotelaria. A programação da entidade inclui workshops, seminários e cursos sobre revenue management, tecnologia, sustentabilidade, marketing digital e governança corporativa. “Ao participar de um workshop de revenue management promovido pela ABIH-SP implementei uma precificação dinâmica que elevou em 12% a taxa de ocupação do meu empreendimento em São Paulo (SP)”, relata Carlos Menezes, executivo de redes. Ou seja: ter acesso a conteúdo atualizado, ministrado por especialistas do setor, acelera a adoção de melhores práticas e contribui para a inovação diária no hotel.
Ao mesmo tempo, tomar parte em comissões e diretorias regionais estimula competências de liderança e gestão de projetos. Ao presidir a ABIH-SC, por exemplo, Margot Rosenbrock Libório, empresária de Balneário Camboriú (SC), precisou articular agendas, negociar orçamentos e representar o setor em discussões com órgãos públicos. “Quando os empresários se unem eles ficam muito mais fortes, e a ABIH existe também para reforçar essa união”, afirma. De modo geral, o exercício de funções de governança traz aprendizados sobre documentação, planejamento estratégico e condução de equipes – habilidades transferíveis para qualquer empresa.
11 competências que o associativismo na hotelaria ajuda a desenvolver
1. Comunicação assertiva
Em reuniões e apresentações você aprende a transmitir ideias de forma clara e objetiva, garantindo compreensão e engajamento de públicos diversos.
2. Negociação e influência
No processo de captação de parcerias e patrocínios para eventos exercita-se a arte de mediar interesses e chegar a acordos vantajosos para todos.
3. Gestão de projetos
Planejamento de congressos, feiras e campanhas de marketing colaborativo exigem controle de cronogramas, orçamentos, metas e indicadores de desempenho.
4. Inteligência emocional
A convivência com diferentes perfis e pressões de prazo desperta autoconhecimento, empatia e resiliência, aspectos fundamentais para lidar com conflitos e mudanças.
5. Trabalho em equipe colaborativo
Compartilhar responsabilidades em comitês regionais refina a cooperação, o respeito a funções complementares e o espírito de colaboração para resolver desafios complexos.
6. Visão estratégica
Debates sobre cenários macroeconômicos, tendências de consumo e políticas regulatórias ajudam você a antecipar movimentos do mercado e a planejar ações de curto, médio e longo prazos.
7. Gestão de tempo e priorização
Equilibrar demandas da associação com a rotina operacional obriga a definir prioridades, otimizar processos e dizer “não” quando necessário, evitando sobrecarga.
8. Organização de eventos e logística
A experiência prática de organizar eventos regionais aprimora o domínio de fluxos de credenciamento, contratações de fornecedores, montagem de espaços e divulgação eficaz.
9. Advocacy e relacionamento institucional
Representar o setor em audiências públicas e frentes parlamentares exige elaboração de propostas, articulação política e capacidade de apresentar argumentos convincentes.
10. Inovação e pensamento criativo
Participar de grupos de estudo e hackathons internos estimula soluções originais para problemas operacionais, muitas vezes criadas em colaboração com startups e universidades.
11. Avaliação de indicadores e métricas
O acesso a pesquisas e relatórios setoriais melhora sua habilidade de interpretar dados, gerar insights e embasar decisões com maior precisão.
“A participação ativa na ABIH-BA me permitiu entender melhor a regulamentação do turismo e me antecipar às mudanças no mercado regional em Ilhéus (BA)”, contou João Batista Oliveira, proprietário de pousada, em abril de 2025, como revela notícia publicada no site da ABIH-BA. Já em Belo Horizonte (MG), Felipe Almeida destacou, para a Revista Hotéis, em novembro de 2024: “Ser membro da ABIH-MG ampliou minha visão sobre modelos de negócios e práticas sustentáveis adotadas em hotéis de todo o país. Isso foi crucial para minha evolução profissional”.
No âmbito nacional, o Conotel (Congresso Nacional de Hotéis) e os fóruns de turismo são palcos de debates que moldam o futuro da indústria. Acompanhar esses encontros de perto e votar em pautas de interesse coletivo transforma cada associado em um protagonista das decisões que impactarão o setor nos próximos anos.
Ao final, a maior vantagem do associativismo na hotelaria é o senso de pertencimento. Trabalhar em equipe para defender causas comuns, celebrar conquistas legislativas e dividir aprendizados consolida uma identidade profissional que transcende o dia a dia operacional. Você deixa de ser um hoteleiro isolado e passa a integrar uma comunidade engajada com a excelência e a inovação epagar um valor simbólico de contribuição associativa: participe dos debates, proponha projetos, assuma responsabilidades e transforme o associativismo em uma experiência prática de crescimento contínuo.m hospitalidade.
Se seu objetivo é acelerar a carreira, ampliar horizontes e se tornar referência no mercado hoteleiro, a participação ativa em uma associação como a ABIH é a melhor estratégia.
Refletir sobre a sabedoria é adentrar um território denso e inevitável. Não se trata de um conceito abstrato, mas de algo que se manifesta na vida cotidiana, moldado pelas experiências vivenciadas, pelas dores e alegrias que acumulamos, e pela forma como o tempo se inscreve em nossa memória e em nossos corpos.
O tempo, esse Senhor reverenciado como divindade em tantas culturas, permanece à medida que nos escapa: corrói, cicatriza, amadurece. Na fisiologia, marca rugas, reduz velocidades, mas também refina percepções. O que antes parecia urgência inadiável, mais tarde se revela detalhe menor. É nesse contraste entre juventude e maturidade que a sabedoria encontra seu lugar, como um presente dado a quem aceita aprender com cada etapa da vida.
Na chamada “escola da vida”, a sabedoria não se limita à erudição, nem se restringe a diplomas ou títulos. Está no agricultor que conhece o ritmo das estações pela simples observação do vento. No pescador que sabe ler o mar ao perceber o movimento das gaivotas. Está também na professora que, em décadas de sala de aula, aprendeu que ensinar é, antes de tudo, escutar. São narrativas comuns que se tornam obras de arte cotidianas, esculpidas na paciência, no silêncio e na entrega.
Nas artes, a sabedoria se traduz em exemplos vivos. Machado de Assis, já em idade avançada, sintetizava nas entrelinhas de seus romances o olhar arguto sobre as contradições humanas. Guimarães Rosa ensinava que “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Cecília Meireles, com a maturidade da poesia, lembrava que “a vida só é possível reinventada”. Cada um, em seu ofício, fez do tempo um aliado criador, e não um inimigo a ser combatido.
Em nosso cotidiano, encontramos igualmente sábios anônimos: avós que narram histórias de resistência, trabalhadores que sustentam famílias com dignidade, líderes comunitários que mobilizam pessoas sem esperar recompensas. Sabedoria é, em essência, essa capacidade de transformar experiência em ensinamento, de ressignificar perdas e de perpetuar valores.
Que possamos, diante do Senhor Tempo, nos permitir aprender com humildade. A sabedoria não é ponto de chegada, mas caminho contínuo — presente que se renova em cada encontro, em cada erro convertido em lição, em cada gesto de generosidade que, silenciosamente, se inscreve na eternidade da memória humana.
*Luiz Henrique Arruda Miranda é Comunicador Social e CEO da Agência Amigo – Comunicação Integrada, publisher do portaldohoteleiro.com.br; das revistas Skål São Paulo, Visite Guarujá e diretor de Comunicação e Marketing da Skål Internacional Brasil.